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A normalidade do assédio

Qual mulher nunca sofreu de assédio? Pode ser sutil, daqueles que fica difícil se posicionar; pode ser ‘estilo brincadeira’, daqueles que se ri para se livrar da situação; pode ser direto e firme, daqueles que fazem emudecer; ou grosseiro e agressivo gerando temor; seja qual for o tipo, é difícil encontrar alguma mulher, especialmente acima de 30 anos, que não tenha passado por uma situação de assédio. Muitos dirão que faz parte de ser mulher numa sociedade em que o poder vem há séculos se consolidando nas mãos de homens, principalmente, brancos e heterossexuais. Sem dúvida. Não que esteja certo, mas a ideia de que essa era a realidade, nos fazia minimizar os ataques masculinos e nos ensinava a lidar com eles como obstáculos inevitáveis da convivência social.

O que mudou então? Mudou que o que consideramos normal, está se transformando. Antes partíamos de uma ideia de sociedade em que a normalidade era os homens terem poder superior ao das mulheres. Esse poder era exercido em todos os territórios, públicos e privados. Dentro dessa construção de normalidade, o homem certo para casar era o que tivesse conquistado uma boa dose de poder para garantir um futuro melhor para a mulher e seus filhos. Fazia parte da ideia do poder masculino as investidas sexuais. Quanto mais mulheres, mais poderoso – ainda há muitas pessoas que pensam assim. Havia inclusive o pensamento que um homem chamado de ‘garanhão’, num misto de reprovação e admiração, seria mais experiente e por conseqüência, melhor marido. Inclusive, os românticos diziam que era bom que o homem tivesse muita experiência sexual, porque assim, quando casasse, sossegaria. Essas ideias fizeram parte da minha criação e, devo confessar que hoje não consigo encontrar nenhuma correlação que justifique esse raciocínio. Mas era o pensamento de uma época e quando estamos nela, todas as crenças que a regem nos parecem normais e naturais.

Por estarmos em transição de valores e crenças sociais, a nossa ‘normalidade’ está sendo reconstruída passo a passo. De um lado há pessoas que pensam e agem como no passado, considerando natural o homem assediar e a mulher se resguardar e se esquivar. Outras, estão caminhando para novas formas de conceber o homem e a mulher e as relações de poder entre eles, mas por ter vivido com a realidade antiga por muitos anos, tornam-se, muitas vezes, incoerentes e contraditórias. É comum isso acontecer numa fase de transição. As novas crenças não estão estabelecidas e vivemos com um pé no passado e outro no presente. Na outra ponta, estão as pessoas que – benditas elas! – levantam bandeiras ferozmente para nos alertar que o modelo velho precisa morrer e ser enterrado. São elas que aceleram nossa mudança de conceito sobre a normalidade.

Pode ser que muitos não gostem das bandeiras sendo empunhadas a favor da equidade de gênero e do fim do assédio sexual –seja masculino ou feminino – considerando-as exagero, que o politicamente correto está deixando tudo chato e careta – quem não ouviu isso já?; entretanto, é preciso reconhecer que graças a essas bandeiras, as mudanças estão acontecendo. Que precisamos de firmeza, sem necessariamente cair na armadilha da agressividade, para mudar crenças tão arraigadas em cada um de nós. Precisamos buscar dentro de nós a coerência para não contribuir com uma realidade que não faz mais sentido dentro de nós. Com o tempo, a nova realidade e as crenças que regem sua normalidade irão se consolidar, e assim, o assédio sexual de um homem ou de uma mulher sobre alguém com menos poder, nos surpreenderá pela sua anormalidade.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br