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Estupro Mental ou Invasões Barbaras

Assunto do momento: o afastamento de José Mayer, artista Global dos mais conhecidos do grande público noveleiro!

Afastado por denúncia de assédio a uma figurinista na empresa em que trabalha e é contratado. Certamente, foi afastado com salario integral (será?), pois gera muitos lucros com suas interpretações televisivas.

Que mundo é este onde o respeito pelo corpo do outro não existe? Qual o limite de onde posso ir, e se posso falar e fazer o que quero sem ao menos reconhecer, não ser proprietário do desejo do outro?

Que mundo mais maluco é este onde bombas e agentes químicos são usados para dominar? O que sera que os mandantes de tal babarei tem na cabeça? Prepotência? Arrogância?

Ao longo do desenvolver do humano, os fortes foram dominando os fracos e assim ficou estabelecido. O domínio pela força existe. Domínio por medo também.

Existe o mito de que homens são mais fortes que as mulheres. Pode ate ser, que fisicamente os músculos masculinos, feitos para caçar e prover a família, sejam mais aptos e mais fortes.

Mas a mulher, que tem a força da maternidade em si, desenvolveu habilidades para viver em um mundo, onde a astucia e sabedoria, pode ter significado importante

Todas temos algum episódio para contar, sobre assédio, desrespeito ou invasão de privacidade. Seja homem ou mulher.

O que é politicamente correto? Certamente, assediar homem ou mulher é totalmente incorreto, pois trata-se de invadir a privacidade do outro, seja com um gesto (físico) ou mesmo com palavras que machucam e marcam, muitas vezes mais do que um gesto concreto.

Esta agressão verbal que chamo aqui de Estupro Mental, vem acompanhada de constrangimento a quem é dirigido ou na atividade de algo improprio ou agressivo, que não deixam marcas físicas.

 Muitas vezes, ficam registros na alma para sempre, e tornam a pessoa a quem esta agressão foi dirigida, um “deficiente”, um incapaz em reagir. Este sofrimento pode converte-se em sintomas físicos: alergias, dores de cabeça, dificuldades em dormir, síndrome do pânico… Esta é a forma de expressão possível, o recurso de cada um.

 Ou seja, somos delicados e suscetíveis a gestos sem filtro. Ninguém esta preparado para receber golpes, críticas constantes e palavras duras e contundentes. Nem mesmo, viver em meio a bombas e destruição. Nem também com desrespeito. Somos o resultado de anos e anos, seculos e seculos do constante lutar pela sobrevivência. Alguns mais resistentes. Outros nem tanto.

O gesto da denúncia feminina ao desrespeito e impunidade foi muito legal! Mas isso não garante que a cultura da violência esteja condenada e caminhando para a extinção.

Nós, como mulheres e seres humanos, devemos continuar a batalhar pelo respeito a individualidade, e, reconhecimento dos limites e necessidades de quem amamos. Talvez assim, cada um cuidando do seu espaço, possamos fazer a diferença e nos proteger de invasões e desrespeitos.

Miriam Halpern
Psicologa e Psicanalista
mhalperng@gmail.com

A normalidade do assédio

Qual mulher nunca sofreu de assédio? Pode ser sutil, daqueles que fica difícil se posicionar; pode ser ‘estilo brincadeira’, daqueles que se ri para se livrar da situação; pode ser direto e firme, daqueles que fazem emudecer; ou grosseiro e agressivo gerando temor; seja qual for o tipo, é difícil encontrar alguma mulher, especialmente acima de 30 anos, que não tenha passado por uma situação de assédio. Muitos dirão que faz parte de ser mulher numa sociedade em que o poder vem há séculos se consolidando nas mãos de homens, principalmente, brancos e heterossexuais. Sem dúvida. Não que esteja certo, mas a ideia de que essa era a realidade, nos fazia minimizar os ataques masculinos e nos ensinava a lidar com eles como obstáculos inevitáveis da convivência social.

O que mudou então? Mudou que o que consideramos normal, está se transformando. Antes partíamos de uma ideia de sociedade em que a normalidade era os homens terem poder superior ao das mulheres. Esse poder era exercido em todos os territórios, públicos e privados. Dentro dessa construção de normalidade, o homem certo para casar era o que tivesse conquistado uma boa dose de poder para garantir um futuro melhor para a mulher e seus filhos. Fazia parte da ideia do poder masculino as investidas sexuais. Quanto mais mulheres, mais poderoso – ainda há muitas pessoas que pensam assim. Havia inclusive o pensamento que um homem chamado de ‘garanhão’, num misto de reprovação e admiração, seria mais experiente e por conseqüência, melhor marido. Inclusive, os românticos diziam que era bom que o homem tivesse muita experiência sexual, porque assim, quando casasse, sossegaria. Essas ideias fizeram parte da minha criação e, devo confessar que hoje não consigo encontrar nenhuma correlação que justifique esse raciocínio. Mas era o pensamento de uma época e quando estamos nela, todas as crenças que a regem nos parecem normais e naturais.

Por estarmos em transição de valores e crenças sociais, a nossa ‘normalidade’ está sendo reconstruída passo a passo. De um lado há pessoas que pensam e agem como no passado, considerando natural o homem assediar e a mulher se resguardar e se esquivar. Outras, estão caminhando para novas formas de conceber o homem e a mulher e as relações de poder entre eles, mas por ter vivido com a realidade antiga por muitos anos, tornam-se, muitas vezes, incoerentes e contraditórias. É comum isso acontecer numa fase de transição. As novas crenças não estão estabelecidas e vivemos com um pé no passado e outro no presente. Na outra ponta, estão as pessoas que – benditas elas! – levantam bandeiras ferozmente para nos alertar que o modelo velho precisa morrer e ser enterrado. São elas que aceleram nossa mudança de conceito sobre a normalidade.

Pode ser que muitos não gostem das bandeiras sendo empunhadas a favor da equidade de gênero e do fim do assédio sexual –seja masculino ou feminino – considerando-as exagero, que o politicamente correto está deixando tudo chato e careta – quem não ouviu isso já?; entretanto, é preciso reconhecer que graças a essas bandeiras, as mudanças estão acontecendo. Que precisamos de firmeza, sem necessariamente cair na armadilha da agressividade, para mudar crenças tão arraigadas em cada um de nós. Precisamos buscar dentro de nós a coerência para não contribuir com uma realidade que não faz mais sentido dentro de nós. Com o tempo, a nova realidade e as crenças que regem sua normalidade irão se consolidar, e assim, o assédio sexual de um homem ou de uma mulher sobre alguém com menos poder, nos surpreenderá pela sua anormalidade.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br