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Cinco décadas

Cinco décadas na vida de uma mulher

Levei alguns dias para escrever este texto. Duvidei se devia ou não. Me ajudou a decidir lembrar que umas das promessas que fiz para mim mesma ao continuar a trilha dos meus estudos e meus textos é de caminhar através dela a partir do coração, conduzida pelo meu Sentir; o que torna tudo sensível, delicado, nos deixando com uma sensação clara de fragilidade. É uma escolha que fiz porque sei que é nessa fragilidade que está a nossa liberdade; ao fazer a entrega pelo Sentir, nos despimos de tantas máscaras que o que sobra, somos só nós; existe maior liberdade do que nós despidos perante o mundo?

Cheguei aos 50 anos. Meio século. Consciente que caminhei até aqui mais tempo do caminho que ainda tenho a fazer. Escrevo isto sem nenhum tipo de aflição porque, sinceramente? penso que 101 anos é muito tempo para ser vivido.

Creio que toda década traz em nós uma reflexão sobre o que queremos para o futuro e uma inevitável retrospectiva do que vivemos até o momento. O zero no nosso tempo de vida traz uma certa urgência por atingir os objetivos que ambicionamos. Prometemos para nós mesmos ser mais focados e conscientes do tempo. Dependendo da pessoa, essa promessa se perde nas tarefas do dia a dia.

Não lembro do meu aniversário de 20 anos mas sei que passei a década me convertendo em alguém além da sombra dos meus pais. No meu caso era importante ser diferente deles. Tem gente que anda pela vida pela similitude, eu ando pela diferença. Casei aos 21 na loucura e na inocência de quem ainda não sabe bem o que é casar. Ganhei um marido amoroso e duas crianças que hoje são dois homens espalhados pelo mundo. O casamento não durou quase nada mas me deu a liberdade que tanto ansiava.

Lembro que eram tempos difíceis, temos poucas armas e muita energia. O caminho no meu caso longe do meu país, foi solitário e ao mesmo tempo feliz porque tinha poucos parâmetros para me apoiar e me cercear.

Cai na publicidade e não sei ao certo como; óbvio, foi a profissão que escolhi mas não posso dizer que foi uma escolha do coração. Sempre tive sorte e a aproveitei devolvendo a ela dedicação e empenho. Consegui trabalhar nas principais agências da região onde morava e conviví com grandes profissionais com quem aprendi muito.

Lembro dos meus 30 claramente e como celebrei me despedindo, mesmo sem tanta consciência, de um modelo de vida que falava cada vez menos comigo. Foi um tempo que viajei buscando em diversas partes deste planeta pedaços de mim. A única coisa clara que tinha dentro de mim era aquilo que não queria na minha vida. Tinha aberto minha empresa, a behavior, e junto com a equipe que me suportava amorosamente – é essa exatamente a noção que tenho da época sobre minha liderança neurótica e exigente – fizemos coisas lindas. A liberdade de expressão, formas e conteúdos iam tomando cada vez mais meu ser.

Lembro de uma viagem que fiz e que pela primeira vez senti saudades de um amor que ainda não tinha vivido. Aos meus amores, paixões e outros nem tanto, meu agradecimento, e para alguns minhas desculpas. Também no território do amor romântico era guiada por aquilo que não queria. As minhas pesquisas sobre valores, atitudes e comportamentos foram me tornando bastante alerta à externalidade de valores que nem sempre batiam doces no meu coração; por outro lado, embora ainda não conhecesse toda sua potencialidade, havia dentro de mim a lembrança de um grande amor futuro que me guiava; o grande amor da minha vida que estava por vir.

Lembro que foi uma década em que as diferenças com a minha mãe se tornaram mais conscientes, e quanto mais conscientes ficavam, mais dura a nossa relação. Hoje sei que havia dentro de mim um saber que essa era uma relação importante a ser trabalhada, porque apesar da dureza, foi um período bem próximo dela. Viajamos muito, pegando estradas com destinos nem sempre certos e as lembranças do seu rosto impregnado pela alegria de se aventurar, acalentam minha alma até hoje.

Foi nessa década que meu irmão voltou para morar perto de nós. Iniciamos juntos uma tentativa bastante atritante de convívio. Mas pelo amor que sempre nos uniu, ambos sabíamos que devíamos continuar até as arestas desaparecerem. Foi também nesses tempos que me dediquei em corpo e alma à busca espiritual e à meditação, que aprendi a chamar de interiorização. Foi a década que me reconectei com meu país, com minha origem e meu passado ao fazer o Inka Trail, lembro de cortar as unhas inconvenientemente longas, sentada na calçada da Praza de Armas de Cusco para iniciar uma trilha que até hoje não acabou.

Lembro como foi fácil e familiar para mim fazer o trekking, descansar em bolsa de dormir dentro de uma barraca sem nunca antes ter feito isso. Lembro que reconheci no vento forte e frio das montanhas a voz que até hoje me guia. Lembro que foi o início da volta a mim mesma e o que é mais sagrado dentro de mim. Após esse retorno, voltar para a mesma vida não fazia mais sentido. O vento, agora aliado, me empurrando para novos caminhos.

Foi quase no final dessa década, que ele chegou. Chegou sem avisar e sem ser notado. Chegou sem nenhum brilho nos olhos, nem estrelas no céu. Sem nenhum interesse temporário. Simplesmente chegou e quando era para ser se mostrou em todo seu esplendor. Pela primeira vez, eu sabia que era ele que minha alma queria, que era dele que tinha tantas saudades.

Lembro dos meus 40 tentando ser mulher, cuidando do meu feminino ainda com os modelos das outras gerações que teimavam em me guiar. Lembro que foi a época que conscientemente exercitei amar e me entregar. Lembro que o que me guiava era o forte desejo de proteção desses três seres que entraram na minha vida assustados e machucados. Lembro que errei muito até encontrar a minha própria forma de entrega. Embora tivesse iniciado o processo de aprender a cuidar de alguém com os filhos do meu primeiro marido, foi com o meu grande amor que aprendi a amar e cuidar os filhos dos outros. Para uma pessoa que se expressar, é viver, foi aos poucos que aprendi a lidar com a aflição da responsabilidade de cuidar com certo distanciamento. Lembro que nessa década nasceu minha primeira sobrinha. Já com mais prática consegui me aproximar e contribuir para que ela e sua irmã tenham um futuro consciente, aberto de possibilidades.

Também foi nessa década, logo no início, que a insatisfação começou a surgir. Aquele vento que me desassossega até eu agir. Meu trabalho não me dava mais prazer, usar meu conhecimento e meus talentos para o consumo pelo consumo não estava me deixando feliz. Decidi canalizar o olhar sobre o consumidor para um aspecto mais amplo, o de ser humano; queria humanizar as empresas as quais atendia, queria promover relacionamentos mais amorosos.

Lembro que convidei um grupo pequeno de clientes e amigos para apresentar o que iria fazer. Poucos entenderam até porque nem eu sabia ao certo o que iria fazer. Lembro que falei com um amigo que estava se tornando meu principal cliente e como seu rosto mostrava todo o esforço em entender do que estava falando.

Lembro da mesma expressão, dias depois, no rosto de sua principal executiva. Lembro que na época não tive medo de perder o cliente, a minha energia estava toda destinada a dar forma aquilo que estava dentro de mim. Lembro que ele me chamou de corajosa. Foi a primeira vez que eu pensei que pudesse ser de fato uma, embora foi a empresa que mais me apoiou nas inovações que fui fazendo desde então. Não sei se era coragem que me guiava, mas tinha uma certeza: o que vinha fazendo não tinha mais sentido para mim. Hoje eu vejo que sempre tive muita confiança na vida e isso me levou a me jogar aos vazios onde costuma viver a plenitude.

Fui no final dessa década que meu amor resolveu mudar sua carreira. Ele se jogou ao vazio. Foram poucos anos difíceis, de muita insegurança, de algumas trilhas erradas mas de muitas pessoas maravilhosas que cruzaram nossos caminhos nos abrindo portas, abraçando, acalentando, pessoas que levamos conosco até hoje. Interessante como ao longo da vida pessoas importantes, que amamos de verdade, partem para nunca mais voltar. Como outras entram nas nossas vidas para nunca mais sair. E, algumas retornam, muito tempo depois, para iniciar uma nova história.

Lembro muito bem, até porque é uma história próxima, que foi na década dos 40 que consegui meu maior desafio e por isso o que mais minha alma queria: fazer as passes com a minha mãe. Quando ela chegou na minha casa doente e compreendi que ela tinha chegado para ficar, entendi que era a hora de passar a limpo a relação. Sair da relação cordial que guarda muitas mágoas nas suas entranhas para uma relação aberta, cheia de amor, compreensão e perdão.

Foi, até hoje, a missão mais difícil da minha vida, mas a que mais me traz alegria, a que mais me emociona, a que mais me traz paz e orgulho. Quando a minha mãe, a Mamita, a Gola, como meu irmão amado e eu a chamávamos, foi para o andar de cima, só havia amor entre nós. Fazer as passes com nossas mães em vida é o mais pacificador de alma que existe na terra, podem acreditar. Para alegria dela, meu irmão e eu vivemos desde então uma relação amorosa cada um cuidando do outro.

Lembro que após a morte da mamita veio o vazio, o vazio da falta de propósito e sentido de vida. Foi quando compreendi que o que sempre me guiou foi perdoar e ser perdoada pela minha mãe. Feito isto, porquê viver? Para quê? Foram quase 2 anos e meio para me reconstruir. Teve momentos que pensei que não conseguiria, teve momentos que pensei ter conseguido mas o caminho se desintegrava na medida que caminhava por ele. O amor e paciência dos meus amores próximos me ajudaram a andar. Especialmente do meu companheiro e amado. Sua doçura, força, trabalho e dedicação me suportaram estes tempos de inverno que me custava deixar.

A poucos meses de fazer 50, da década virar, ainda meu caminho era incerto. Desta vez o tempo tinha soprado insistentemente, a insatisfação era latente mas não sabia nem tinha a forca para escolher novos caminhos. Foi um período que me recolhi. Precisava do pouco que sobrara de mim. Sabia que tinha que mudar minha forma de operar com o mundo. Minha existência tinha mudado, assim, o meu trabalho, a minha entrega para o mundo tinha que mudar, tinha que acompanhar o novo em mim. O inverno tinha chegado e integradamente ao meu redor as coisas também iam mudando sem eu pedir: clientes antigos mudavam de rota, novos clientes se apresentavam em momentos chaves, mas nenhuma relação forte e exigente demais veio até a mim. Foi assim que a reflexão através da escrita foi tomando corpo em mim e mesmo sem planejar, sem grandes intenções, de forma leve e amorosa, o novo foi surgindo em mim.

Chego aos 50 leve. Sem maiores propósitos do que viver, entregando ao mundo o meu melhor. Compreendi que a palavra escrita é minha melhor forma, mas não a única; que a pesquisa, minha fonte, o que me inspira, tem sentido quando quem a contrata está em busca de compreender melhor o outro para se entender. Que gerar reflexão é minha forma de agradecer à vida. Entendi que escrever publicamente é me expressar para o mundo, entregar o meu ser.

Difícil dizer que estou feliz aos 50, como se o conceito de felicidade não cumprisse a missão de expressar meu estado de espírito. Só sei que saí do inverno. Que a vida hoje está colorida e abundante de oportunidades. Iniciei a celebração dos meus 50 rodeada de alguns poucos amigos que estiveram comigo nestes tempos invernais, não para excluir outros, mas para agradecer a paciência e amor daqueles que estiveram ao meu lado, bem grudados.

Minha década de 50 se inicia agora e um novo livro de páginas em branco se abre a minha frente. Não sei qual é o caminho nem a forma que ele tomará, só sei que sou ele leve, plena e em paz.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br