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Equidade

A aversão ao feminismo

Trabalho com o feminino há anos e nos últimos também dentro de empresas que buscam ampliar a presença feminina na sua liderança. Quando o tema do empoderamento feminino ou mulheres na liderança é introduzido tenho percebido um certo desconforto e até aversão ao tema por considerar que estaremos tratando do assunto de forma feminista. Fiquei me questionando porque isso acontecia se foi graças ao feminismo que conseguimos maior espaço e presença social. Não deveríamos todas, apoiá-lo?

Sei que nenhuma reação costuma ter uma única origem mesmo assim penso que boa parte dessa aversão ao feminismo se deva à associação por boa parte de nós mulheres interessadas pelos seus logros, com um movimento bélico e agressivo que busca se equiparar aos homens não só pelos direitos mas também pela sua forma masculinizada de agir. De onde vem essa ideia? Provavelmente da imagem suave, delicada e conciliadora com que construímos a ideia de feminino no passado e que ressoa ainda em nós. Por consequência, esse feminino não poderia lutar num tom mais imperativo pelos seus direitos. A luta, seguindo este raciocínio, deveria ser mais sutil, pelas bordas, sem o confronto direto.

Outro ponto, é que boa parte de nós mulheres não queremos ter que lutar diretamente contra os homens que estão ao nosso redor por cada gesto, palavra e comportamento que denotam machismo. De certa forma, o que sinto, é um certo cansaço. Sentimos que já lutamos por tantas coisas, enfrentamos tantas dificuldades, que o território da equidade entre os gêneros, por maior que seja o ganho, parece ser tão difícil de ser enfrentado que optamos por outras batalhas.

Precisamos primeiro entender que o feminismo não necessariamente é feito por e para mulheres com traquejos bélicos ou duros; e que mesmo que isso possa acontecer com algumas mulheres ícones do movimento, esse enfrentamento direto também é necessário para mexer com estruturas sólidas e longamente arraigadas no nosso inconsciente coletivo. Tornar consciente os atos machistas do dia a dia – inclusive os nossos – é um dos caminhos para fazermos a mudança que desejamos.

Percebo que as mulheres estão entrando num movimento mais pacifista. Sou totalmente a favor. Acredito nessa linha de raciocínio e de postura porque faz mais sentido com meus valores de vida – sem negar, como disse anteriormente, a força e o valor do confronto direto e mais duro – mas nesse caminho aparentemente mais leve precisamos ser guiadas pelo perdão e compreensão e não pela ignorância e ingenuidade.

Perdoar e compreender para ajudar a mudança é muito diferente do que não enxergar – ou não querer enxergar – e imaginar ou fingir que nada está acontecendo. O cansaço da luta não pode querer minimizar os atos machistas ao nosso redor sob o risco de perder boa parte dos ganhos obtidos até aqui. Dizer não à discriminação deve ter a firmeza da nossa convicção e ela pode sim ser sem a agressividade do murro ou da palavra ofensiva, mas precisa ter a clareza de quem sabe que radica em si o processo de mudança que tanto queremos. O feminismo busca equilibrar e equiparar a mulher aos mesmos direitos dos homens. A forma de levar isso adiante é uma questão de escolha. Não vamos matar o nobre objetivo pela forma. Escolha a sua e sigamos adiante.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br/blog

A Sofia dentro de nós.

Em 1762 o filósofo suiço Jean-Jacques Rousseau escreveu Emílio, um obra sobre como devia ser a educação do homem – e da mulher – para obter uma sociedade virtuosa e perfeita. Rousseau dedica um capítulo à educação das mulheres: Sofia. Sofia trata de como educar a mulher ideal para Emílio. Nele podemos entender o que significava uma mulher perfeita para a época: submissa ao homem, com pouco ou mínimo acesso à educação formal, dedicada aos filhos e a família. Que deveria “aprender desde cedo a sofrer injustiças” e distrair seu marido através de artes como cantos e danças. Ainda, como as mulheres possuíam certa “indocilidade” era importante, segundo Rousseau, que “sejam submetidas desde cedo” a este modelo criado por ele para disciplinarem seu caráter.

Emilio é uma leitura obrigatória para entender a série de crenças sociais que constituem o que é ser mulher – e homem – e, por mais distante que pareça o ano de 1762, até hoje influenciam nossas escolhas e comportamentos. Com o passar dos séculos, os comportamentos se modificaram e podemos não ser submissas como eram nossas avós ou bisavós que calavam e temiam seus maridos; entretanto, mesmo com toda a independência que ganhamos, reflita comigo como muitas de nós estamos dispostas a perdoar os erros do companheiro com facilidade, independente da quantidade de vezes que esse erro se repete; o quanto temos o ímpeto de “atender” as vontades de nossos companheiros mesmo que isso signifique abrir mão da nossa; de tratá-los com certa complacência, como se não fossem capazes de suportar uma negação ou frustração.

Pense que talvez nessas atitudes e comportamentos cotidianos existam a semente da Sofia de Rousseau plantada dentro de nós. Nossa submissão não é de serva como antigamente, mas é demostrada, mesmo que com roupagem moderna, quando colocamos o homem, nosso homem, num espaço privilegiado e protegido. Algumas podem dizer que é natural à mulher esse tipo de atitude, que é o lado maternal que brota, que a mulher é acolhedora e nisso radica sua feminilidade… crenças que recebemos desde que nascemos e que ao internalizar e transformar em comportamento, transmitimos para nossos filhos.

Meu convite esta semana é refletir o quanto o ideal feminino que nos guia está associado à mulher que nasceu para atender, satisfazer e fazer feliz o homem que está ao seu lado. O quanto chamamos essa crença de amor. O quanto essas crenças nos afastam do sonho maior que permeia boa parte das mulheres que ouço: o de amar e ser amadas numa relação romântica-companheira. Nessa relação o companheirismo está representado pela equidade, direitos e deveres iguais. Numa relação em que alguém está sempre em destaque, pode haver carinho e amor mas não haverá, certamente, equidade.

Nany Bilate
www.behavior.com.br/blog

Direitos iguais? A equidade começa em nós.

Estou voltando do Canadá encantada com a cultura que o país conseguiu desenvolver, uma cultura que valoriza fortemente a equidade (o respeito a igualdade de direito de cada um) acima de tudo. Penso na mulher que nasce e é criada numa sociedade em que é considerada igual no sentido do direito e deveres, e reflito como estamos longe de chegarmos nesse estágio de civilização. Na nossa sociedade latina nós mulheres nos sentimos diferentes dos homens – e somos, claro – mas na nossa cabeça as diferenças que nos separam deles não são biológicas, mas de universo. Universos paralelos que convivem juntos, mas que não se cruzam, e muitas vezes não se entendem.

O nosso comportamento como mulheres é expressão de crenças e valores muito antigos que temos sobre o que é ser mulher. Temos lutamos incansavelmente para tirar de dentro de nós esse legado, mas devemos confessar que ele nos persegue como a sombra de nós mesmas; por isso, mesmo após tanto esforço, toda mulher tem como modelo do feminino alguém delicado, dócil, amoroso, compreensivo, dedicado e… magro.

Para quebrar com uma situação que nos oprimia fomos progredir profissionalmente. A independência financeira nos deu poder de decisão e atuação. Hoje, quase a metade das famílias brasileiras é sustentada por uma mulher. Chegamos longe, ocupamos lugares de destaque na sociedade e ganhamos auto-estima mas o modelo feminino, aquele que descrevi acima, continua agindo em nós. Fingimos que não o queremos mais, que ele não tem nenhuma influência em nós, mas ele está lá, latejando incansavelmente dentro de nós.

O resultado? Um certo sentimento de inadequação social o tempo inteiro. Sabemos de nosso valor como ser humano, de nossa força criadora e realizadora, mas é como se estivessemos errando o tempo inteiro. Talvez seja por isso que somos tão neuróticas com a perfeição. Queremos tudo certo, tudo perfeito. Talvez por isso precisamos tanto de nos auto-afirmar falando o tempo inteiro que somos o máximo.

O fato é que se não curarmos esse sentimento de inadequação social, se não reprogramarmos esse modelo mental do que é ser feminino e aceitarmos que o modelo é mais amplo, bem mais amplo; dificilmente iremos nos colocar com igualdade de direitos e deveres. Para caminharmos para a equidade social devemos nos sentir, nós mesmas, adequadas socialmente do jeito que somos. Que não somos nem mais nem menos que os homens, mas iguais nas nossas diferenças. Talvez eles não ajudem muito para nos sentir inseridas, mas creio profundamente, que parte de nós nos sentir parte do mundo, não deles, mas o de todos nós.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
Escreve semanalmente sobre as transformações que estamos vivendo como sociedade no blog Movimentos Humanos em www.behavior.com.br