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Minha neurose de estimação

Todos temos manias e coisas das quais cismamos: muitas vezes as cismas são estruturantes. Preciso fazer tal coisa de uma determinada forma, pois assim dá certo!

Superstição ou neurose?

Nascemos neuróticos? Acho que não, mas ao longo da vida colecionamos experiências que assim nos tornam.

Difícil mudar a compreensão dos fatos, se até agora vivi assim, e aqui estou! Certo?

Hoje, pela manhã, li no Facebook um artigo sobre a “pausa” de toda a mãe. Fala da dedicação e desvelo em cuidar das crias. Concordo em gênero, número e grau.

O problema, é que a dedicação leva ao sentimento de propriedade, natural. Afinal, carregamos as crias por 9 meses e por ao menos 20 anos após o nascimento.

Os filhos crescem, ficam independentes (?) e isso obriga a nos ver um pouco sem utilidade. Este pedaço torna-se difícil, pois sem nos darmos conta, estamos com mais tempo disponível (tempo mental), por reconhecer que fizemos um trabalho bem feito e os filhos já podem escolher seus caminhos.

Mesmo sem que concordemos muito, vão nos deixando, caminhando e construindo suas próprias vidas.

É ai que mora o perigo, pois sem perceber, nos tornamos vítimas da própria armadilha! Vitimas??? Será?

Chantagem, cobrança… Nada disso, mas como somos seres neuróticos por excelência, acaba acontecendo! O que fazer com este sentimento, ou melhor, constatação que já não somos o centro da vida dos filhos? São eles ingratos ou é assim que tem que ser?

Muitas vezes revejo minha trajetória, como filha e como mãe. Tento assim compreender e pensar como posso “permitir” que isso aconteça (a liberdade de ambos: mãe e filho) e cada um seguir a vida da melhor forma possível, sem pesos ou cobranças. Sem culpas ou dívidas.

Neuroses, todos têm e esta é das mais evidentes. Somos a única especie do planeta que leva tanto tempo para separar-se da cria. E a cria separar-se de nós.

Mas o amor que tenho pelas minhas crias é tanto, que devo cada dia mais aprender, e confiar que fiz um bom trabalho. E ver de longe, o caminho de cada um deles.

E viver com uma das minhas neuras de estimação!

Miriam Halpern
psicóloga e psicanalista
mhalperng@gmail.com

Coisas da Vida de todas nós

Domingo…

Dando uma volta em meu facebook, vejo uma enquete sobre idade de maternidade.

Começo a lembrar de quando fui mãe pela primeira vez: tinha 21 anos, e era um sonho. Lembrei-me que aos 15, já sonhava em ter minha família.

Ter um bebê, deixar de ser filha para ser mãe! Ter meu bebê em meus braços foi uma realização.

Ir pra casa, com aquele pacotinho de gente, que orgulho!

Mas logo começa a confusão! O bebê chora, faz cocô, trocar fralda, soluça, tem fome… Isto não estava nos livros!

Será que não estava ou eu que não queria acreditar, afinal, meu bebê era uma jóia querida. E certamente não teria nada disto: cólicas, fome, vômitos… nos meus sonhos meu bebê seria perfeito!!!!!!!!!

Mas o bebe tem seus horários, suas vontades e sua personalidade.

E ai? O que faço com todos os meus sonhos e planos?

CHOQUE!!!!!!!!! A realidade é bem outra. O bebê chora a noite, quer mamar… mas será que ele não entende que estou cansada? Com sono? Que dificuldade…. Mais ainda por ter sido mãe tão jovenzinha…

Neste último domingo, o primeiro de um friozinho gostoso, estamos em casa, e recebo meus 2 filhos e suas esposas para almoçar. A netinha vem também, é claro.

Estamos todos conversando na sala, quando o “bebê” do qual falo acima, chega sem avisar! A família está completa!

Este entra e sai em casa, me faz ver que valeu a pena as noites mal dormidas, as cólicas e o cansaço!

Portanto eu digo: Meninas não desistam! Vale a pena!

Afinal, filho é pra vida inteira, felizmente!

 

Miriam Halpern
Psicologa e psicanalista
mhalperng@gmail.com

A Mulher Maravilha entrou de férias

Quando começamos os estudos do Projeto Mulheres em 2010, a mulher estava no auge de sua auto-afirmação. Chamada de poderosa pela mídia, era reconhecida publicamente como alguém capaz de resolver e realizar praticamente tudo. Rápida, decidida conseguia absorver perfeitamente todos os papéis sociais que ambicionou com um bom grau de perfeição. Só tinha uma coisa que ela tinha dificuldade em conseguir: aquele corpo perfeito de capa de revista.

Falar com elas naquela época era ouvir o canto da vitória. Sim, tínhamos chegado longe. Embora existisse – e ainda existe – uma desigualdade assustadora no que se refere a salários, oportunidades e benefícios entre homens e mulheres; era inegável como a mulher brasileira estava no seu momento de sentir-se poderosa, o que significava, a maioria das vezes, se sentir superior ao homem.

Só que para chegar a esse ponto tínhamos dedicado muito do nosso ser para provar que podíamos, que tínhamos a mesma capacidade que os homens de realizar e ainda tivemos que acumular funções e tarefas para ter a permissão social de ocupar um espaço à luz do sol e não somente à luz da cozinha.

Existem crenças sociais muito arraigadas que nos levaram a agir assim. Um exemplo de crença limitante é aquela que nos diz que podemos ser profissionais com tudo que isso implica de dedicação, mas é claro, mãe é mãe então somos nós as – únicas – responsáveis pelos filhos. Outra crença arraigada, é que a casa é da mulher, assim cuidar dela é nossa responsabilidade mesmo que isso signifique mexer em canos ou cabos elétricos. Ah! saudades do homem-mestre-de-obra que sabia furar, lixar, conectar, instalar… verbos que se conjugam cada vez menos com sexo masculino.

Quando terminamos a pesquisa no final de 2010 notamos sinais claros de que essa Mulher Maravilha ia expanar. Era evidente que mesmo com o sabor de vitória nos lábios, a posição onde ela se encontrava a estava exaurindo. Ou ela abria mão da supremacia feminina sobre o lar e os filhos, ou ela abria mão da vida profissional que tanto lhe dava prazer, isso por falar em só dois aspectos dessa Mulher Maravilha. Não tardou e os sinais ficaram mais evidentes: a cada ano nossos estudos mostram mulheres compartilhando com seus companheiros mais os deveres – e não só os prazeres – de cuidar de filhos e da casa. Mulheres abrindo mão da carreira corporativa para se dedicar aos filhos pequenos e conseguirem rendas alternativas em parceria com companheiros que além de arcar com boa parte dos custos da família, dividem – com prazer – tarefas domésticas.

Foi sem dúvida bom saber que podemos ser essa Mulher Maravilha e que obtivemos reconhecimento por isso, mas é melhor ainda estar no auge e decidir, por vontade própria, sair do pedestal para vivermos de formas mais leve, saudável e prazerosa.  A Mulher Maravilha ainda existe em nós e ela pode ser chamada assim que a precisarmos mas umas férias prolongadas não faz mal a ninguém, faz?

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
Escreve semanalmente sobre as transformações que estamos vivendo como sociedade no blog Movimentos Humanos em www.behavior.com.br