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fora do padrão

A amante

Na Vogue de março há uma matéria sobre Anne Pingeot, amante por mais de 30 anos de François Mitterand, ex-presidente da França e um dos políticos mais influentes do século XX. A história deles é extraordinária no sentido literal da palavra: não tem nada de ordinária. Danielle, a mulher de Mitterand, e seus filhos conheciam Anne. Mais: Anne e a filha viviam num anexo do Palácio do Eliseu, palácio oficial da presidência da França. Ou seja, próximas da família “oficial”. O que faz uma mulher virar amante, daquelas fixas? No caso de Anne por mais de 30 anos? Dinheiro, a maioria dirá. Talvez. Não muito diferente das mulheres que mantém casamentos há muito tempo acabados pelo mesmo motivo. Elas mantém esses casamentos em nome da família, alguns defenderão. Nem todas, vamos convir. Portanto, se isolarmos a questão do interesse financeiro que permeia de alguma forma e em diferentes graus boa parte das relações, qual mais poderia ser a razão para uma mulher sustentar uma relação amorosa com alguém que raramente estará com ela nos momentos considerados importantes? Vamos dificultar a reflexão imaginando nossa mulher-amante como alguém com educação formal e uma boa independência.

O amor! Dirão os mais românticos. Sim, pode ser um bom motivo. Ainda se acreditamos que o amor suporta tudo, apoiados na crença de que o amor impõe sacrifícios; embora penso que o amor – e a vida – impõem escolhas, que não chamo de sacrifício. O desejo de liberdade, será a resposta de outros. Também possível, se ama alguém, sempre o mesmo, numa relação que tem regularidade e estabilidade e ao mesmo tempo se é livre para ter uma vida independente.

Auto-estima baixa, pensarão outros, afinal a mulher se submete a viver à sombra, de não ser a oficial publicamente, com tudo que isso carrega de carga social. Podemos pensar nessa possibilidade se acreditarmos que ser oficial é mérito, se os papéis sociais são tão importantes assim na nossa vida. Sem-vergonha, esbravarão indignados a turma do politicamente correto. Ah! sim, vamos concordar que precisa ter pouca vergonha para assumir uma situação dessas.  Paixão, dirão os mais afoitos, penso que ela leva muitas mulheres a ficarem presas a uma relação por anos, porém, a paixão sobrevive a muitos anos? Tenho minhas dúvidas.

Quanto mais estudo o ser humano mais compreendo que são tantas nuances, tantas variáveis que toda leitura estereotipada no mínimo será leviana. Não pretendo aqui fazer uma apologia às amantes ou as não amantes. Minha reflexão esta semana recai sobre dois aspectos: o primeiro é a opção de viver uma relação ilícita por décadas. Uma relação fora do padrão, que caso não seja claro para a outra parte, no caso a mulher dita oficial – estará contribuindo com uma traição amorosa, com a quebra de lealdade e honestidade que tanto queremos nas relações. Mesmo que digamos não nos importar com o que as pessoas pensam, fomos criados nessa sociedade, somos filhas de seus valores e crenças e nos colocarmos contra o sistema, carregando o peso moral da dor que causa uma traição, sempre deixará marcas doloridas também em nós.

O segundo aspecto que trago para reflexão é sobre a complexidade que permeia as relações humanas o que torna difícil analisar e julgar. Qualquer julgamento sem profundidade estará embasado em estereótipos, em preconceitos que nos isola e nos separa. Podemos, como sempre, não querer para nós um estilo de vida, que as escolhas dos outros nos atinja diretamente – indiretamente, é inevitável – mas compreender que cada um é movido por um sistema complexo que envolve sentimentos, valores, crenças e contexto, ajuda a se solidarizar com outro, apesar de não concordar. Ler a matéria sobre Anne Pingeot também me fez pensar na esposa que aceita uma situação dessas. Mitterand, segundo a revista, dormia todas noites com Anne e passava o final de semana com ela. Isso quer dizer que, no fundo, quem era a oficial? Porque uma esposa aceita essa condição? Como diria Shakespeare “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.