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A dificuldade de ensinar aos nossos filhos o mundo que ainda não vivemos

Estamos de férias na Califórnia e quando passamos por Los Angeles jantamos com um casal de amigos queridos. Eles, jovens com filho pequeno e outro a caminho, promoveram uma troca gostosa, própria daquelas que ocorrem quando há diferenças, neste caso, de momentos de vida. O restaurante a céu aberto contava com luzes amarelas penduradas nas suas árvores que iluminavam os rostos preocupados dos nossos amigos com um dos temas que dominou a noite: a preocupação por criar filhos para um mundo que ainda não existe.

Viver na Califórnia, próximos de tecnologia de ponta que o Vale do Silício oferece, os coloca numa perspectiva de futuro que parece distante e ao mesmo tempo próximo demais para ser ignorado. A preocupação deles por não errar me fez refletir se é possível não errar na educação dos filhos, mais ainda, neste período que vivemos de clara transição de valores e crenças.

Todo o background que usamos foi construído no passado. Nós, a cada dia, somos expressões atualizadas do passado, seja este distante ou próximo. O mundo está mudando a passos amplos e longos. Ninguém mais dúvida disso. O conservadorismo se fortalecendo na política é a expressão clara que o medo pelo desconhecido domina o imaginário dos mais rígidos. Novas formas de se relacionar – com tudo – estão sendo exercitadas a cada instante. Algumas talvez não durem, mas sua existência está tornando largo o caminho das possibilidades. Vivemos no tempo que não temos certeza se estamos sendo retrógrado​s, coerentes ou nostálgicos.

O nosso conceito de Ser – e neles incluídos o que é sucesso, poder, felicidade – estão sendo transformados drasticamente. Como preparar as próximas gerações que viverão num mundo bem distinto do nosso, para terem, por exemplo, sucesso? Nós fomos criados num modelo de competição. No nosso tempo reinou, e ainda reina, o Poder Sobre – a forma antiga de poder que ainda nos rege mas que está em transformação (conceitos que fazem parte do Movimento Humano Poder Isonômico, um dos sete Movimentos que detetei nos meus estudos). O Poder Sobre sobrevive pelo sentido competitivo das relações. Neste modelo de relacionamento e de existência, nosso sentido de ser, se estabelece na medida que nos comparamos com o outro. Precisamos de referências, sejam estas inferiores ou superiores, para sabermos quem somos e onde estamos na estrutura social. A hierarquia é vital para estarmos no mundo.

Quando começamos a diminuir a importância das diferenças na medida que positivamos sua existência e as acolhemos – solidariedade e a tolerância, seu primeiro estágio, são dois caminhos para isso – o nosso lugar no mundo estabelecido a partir das diferenças – sou melhor na medida que há gente pior – perde sentido. Perde poder. Perde importância. Não é a toa que haja um forte movimento para colocar a ordem de novo e manter um sistema hierárquico através da manutenção das diferenças: quem gosta do poder provindo da subjugação do outro, de se sentir realizado e importante na medida que há mais gente embaixo dele, não está nada feliz pelos caminhos que estamos optando como sociedade. E neste movimento incluo, aqueles que desejam manter em papéis sociais rígidos, as mulheres e os homens. Muitos usam a religião como base para forçar a permanência da estrutura social que lhes convêm, mas todos nós sabemos que Deus foi muito usado pelos homens para manutenção de poder.

Ninguém de nós sabe ao certo qual será o nosso futuro como sociedade mas podemos, ao educar nossos filhos, praticar a abertura para a não competitividade como forma de se colocar no mundo – tema do jantar com nossos amigos – e exercitar a colaboração. A colaboração exige não ter bordas nem limites claros, portanto o sentido de Ser, se diluí. A nossa presença, e consequente auto-importância, precisa ser administrada para que nossa satisfação se realize com o conjunto e não com o eu.

Precisamos demostrar aos nossos filhos que quem ganha nem sempre é quem fica com o troféu. E o que o troféu maior é sermos leais aos nossos valores e crenças. Podemos aproveitar um gesto agressivo de uma criança – e o apoio que muitos pais dão a essa atitude – e mostrar como isso não faz parte do mundo que queremos construir. Podemos apontar o que é velho mundo, e novo mundo, positivando nosso Ser através da sensação de atualidade e inovação.

Não acredito que o outro deixe, em algum momento futuro, de ser importante para nos indicar quem somos no mundo, nem que a hierarquia acabe de vez; mas o que observo é uma diluição de estruturas e formas. Preparar nossos filhos para usar seu Ser, como eixo central, mais do que seu Ter – ícones que também determinam quem se é na sociedade atual – poderá ajudá-los a encontrar seu caminho interno de felicidade e sucesso.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br/blog