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O olhar e a leitura

 

O senso comum diz que lemos palavras, mas fazemos várias leituras com nosso olhar:

Olhamos as nuvens e nelas lemos se vai chover.

Vemos no rosto de um amigo se ele esta bem ou não, lendo sua expressão.

Lemos a vida através da experiencia do dia a dia.

Sabemos ler o que diz o chão que pisamos: se é esburacado, cuidado para não torcer o pé. Se choveu, se está escorregadio ou podemos seguir caminhando.

Ler uma notícia, implica em compreender e interpretar, não são apenas palavras, mas letras com um conteúdo, ao qual daremos o colorido que pudermos dar.

Falar ou escrever: um conjunto de letras, ruídos e conteúdos impregnados de interpretações e vivências.

Quando escrevo sou o personagem da história que construo. Como será que sou lida? Quando falo, também.

Quando leio, sou o personagem daquilo que estou lendo. Assim posso entrar e construir um vasto universo. Tudo depende da intenção de descoberta do nosso olhar.

Como será que me leem?

Não sei o que minhas palavras causam: apenas sei que cada leitor fará a leitura que puder fazer das palavras que escrevo.

A liberdade que o conjunto de letras me proporciona, é prazerosa.

Fatos incríveis vêm ocorrendo pelo mundo e é visível como cada um faz sua leitura!

Saiamos do senso comum e vamos procurar ler o outro, cada um com sua história, escrita ou não. Cada vida traz uma leitura rica em detalhes.

Ando exercitando aprimorar minhas múltiplas leituras e assim tornar meu dia a dia mais rico.

Que tal?

Estão todas convidadas!

Miriam Halpern
Psicóloga e Psaicanalista
mhalperng@gmail.com

Enxaquecas, o perigo escondido atrás da automedicação.

Por: Fernanda Arruda Machado.

eu e vi

Com o passar dos anos, a gente se acostuma com tudo, né? Com o sapato que aperta, com a unha encravada, com tudo e com a dor de cabeça também. Mas meninas, dor de cabeça não é normal. Vou contar o mais resumidamente possível. Nessa conversa de “Eu sempre tive enxaqueca”, no dia 28.02 uma quinta feira a noite, eu estava apresentando minha escola de inglês em uma reunião de pais quando senti uma pancada da parte traseira da cabeça. Não, não era a minha enxaqueca. Era diferente. Perdi a capacidade de respirar e falar, estava com meu marido, a dor melhorou, voltei para casa, no dia seguinte fiquei em casa. No sábado e no domingo fui a dois hospitais (São Camilo e São Luiz Morumbi, respectivamente) com uma dor de cabeça (que eu dizia ser enxaqueca), e sentindo o lado direito da face adormecido, a parte de trás da cabeça doía bastante, mas já não era a paulada. Medicada, liberada de ambos os hospitais, mas ainda estava com dor, no São Luiz, fiz uma tomo do crânio que não deu nada (saí de lá com a orientação de um médico que eu procurasse um acupunturista, ele até me deu um cartão).

Na segunda feira pela manhã, por volta das 06:20, estava me arrumando para trabalhar, a paulada de novo, emiti algum som e desmaiei. Minha avó, de 80 anos que mora conosco, conseguiu me reanimar, eu olhei para ela e disse: ‘Ligue para o Daniel (meu esposo), vou morrer. Ela assim fez. Chegamos no SLM. Fui atendida prontamente e enviada para a sala de medicação onde fiquei por cerca de 4h. Nada aliviava. Uma médica então, sem nem se dar ao trabalho de me ver, me receitou morfina na veia e depois alta (não, você não leu errado, ALTA), ao ver o enfermeiro chegar e se informar da situação o Daniel não permitiu que ele fizesse a medicação e foi ligar para a minha mãe na Bahia (sou de família de médicos em Salvador). Após as orientações de minha mãe Daniel fez um escândalo na Emergência solicitando minha internação pois havia caso de AVC na minha família e a Chefe do Plantão veio conversar comigo, e então me internaram. Não posso dizer fui maltratada, durante os dias Pre diagnóstico, mas senti um certo desdém em certos momentos. Mas confesso que eu mesma nem desconfiava que algo grave estava por vir. Para mim era só a maldita enxaqueca!

Passei o resto da segunda feira e a terça tomando medicamento intravenoso e nada… Amplictil na veia era quase água. Nada da dor nem aliviar. Estava esperando uma vaga para fazer uma ressonância e não tinham nem previsão…. Talvez fizesse na quarta, mas ainda não era certeza. Quando de repente, às 23h, a enfermeira entra no quarto:  “Surgiu uma vaga na ressonância, a senhora quer ir fazer ou prefere ir amanhã de manhã? ” Eu queria ter indo ontem! Eu tinha dor de barriga e não conseguia ir ao banheiro porque a simples força necessária me dava a impressão que a minha cabeça ia explodir. Mas era só enxaqueca que não passava com remédio nenhum.

Na quarta-feira a confusão começou cedo… ninguém me dava notícias de nada, não sei o que acontece, o médico não aparece, eu estou com dor, só o médico pode me dar o resultado da ressonância, a enfermagem só pode ligar para o médico em caso de urgência. Minha avó comigo, meu marido trabalhando, minha mãe desesperada na Bahia querendo saber notícias, eu estava zonza…. Uma confusão. Ligo para o meu marido atordoada, chorando, ele corre para o hospital, faz outra confusão, dessa vez na enfermagem, aí eles deram ao Daniel o nome do médico e disseram: “Se o senhor quiser, pode procurar na internet, lá o senhor acha o número do consultório dele, pelo menos.” (?!). Outra confusão, e Daniel manda eles ligarem para o médico e pedir que ele ligue no quarto ou ele iria tomar as providências dele. O médico liga no quarto fala com o Daniel e dá o telefone dele para que ele passasse para minha mãe, mas antes ele diz que os médicos responsáveis pela ressonância acharam uma pequena alteração, mas que é quase impossível a chance de ser o que eles acham que é, que ele realmente acredita que seja uma baita enxaqueca. Meu marido então passa o telefone dele para minha mãe que, juntamente com meus irmãos, passa a ficar da Bahia em contato direto com o Neurologista que estava me acompanhando.

E a tal chance mínima que ele estava tão convicto que não era nada, voltou a aparecer na repetição da ressonância, que refiz naquela mesma quarta feira às 14h e o resultado saiu de imediato. Sendo assim, marcaram às pressas um exame chamado angiografia, que é um cateterismo cerebral, para o dia seguinte às 14h. Ficou acertado entre minha mãe e o Neuro que, dada alguma alteração neste exame, viriam ela, minha irmã Gabriela e meu irmão Felipe para São Paulo.

Na quinta-feira o exame estava marcado para às 11h, estava em jejum, remarcaram para às 14h, um prato cheio para quem já estava com dor. Não sabia o que era esse tal exame, angiografia, e nem o motivo pelo qual estava fazendo, então não tive medo. E eu que sou tão curiosa, não sei porque cargas d’água também não perguntei. Fiquei preocupada, mas hoje digo: de longe o pior exame que já fiz na minha vida. Foi encontrada uma dissecção um na artéria basilar (aneurisma) que é a área cerebral mais complicada do cérebro de se atingir porque por ali passam todas as terminações que enviam os comandos para o resto do corpo. Saí da angiografia direto para a UTI, não sabia o que estava acontecendo, estava mole da anestesia, não estava absorvendo as coisas, ninguém me contou nada. Eu também não perguntei. Fiquei com a perna direita amarrada por 6 horas pois a incisão para o exame é feito na virilha pela artéria femoral. Dormi sozinha na UTI, tenho as lembranças meio distorcidas de quando cheguei ao meu leito da UTI aquela noite. Sei que vi meu marido, minha cunhada, meu cunhado, jantei, tinha muita vontade de fazer xixi e não podia…. Senti muita tensão no ar. Meu marido disse que ia buscar minha mãe e minha irmã e eu não entendia nada. Só queria fazer xixi e dormir. As enfermeiras tiveram pena, porque a médica do plantão não me deixava levantar nem após as seis horas e nem passar sonda, mas enfim… A novela do xixi é outra…

 Quinta feira, acordei com as ideias meio embaralhadas às 8h, sei que vi minha mãe e minha irmã, tenho a cronologia meio distorcida, mas não quero perguntar a ninguém enquanto escrevo esse texto, quero escrever a minha percepção. Sei que eu estava muito tranquila, afinal eu não sabia do que estava acontecendo e também, em momento nenhum eu perguntei. Eu fazia o que me mandavam. Todos me tratavam com leveza e tranquilidade o que me passava ainda mais a impressão de que nada do que estava acontecendo era muito grave. Eu REALMENTE não tinha essa noção, estava sob efeito de medicações muito fortes, não associava nada direito, dormia muito, a minha maior preocupação naqueles dois dias era conseguir autorização do plantonista da UTI para uma sonda de alívio para fazer xixi, já que eu não podia levantar por conta da incisão na virilha. Minha cirurgia estava marcada para as 10h da manhã, então às 9h a enfermeira da UTI veio, me ajudou no banho, trocou minha camisola e às 10h eu estava no centro cirúrgico. Minha irmã Gabriela acompanhou a cirurgia. Isso me deixou muito confiante também, ela esteve presente no parto do meu filho, e por mais nervosa que ela esteja ela sempre demostra calma, contudo, o fato da presença dela e da minha mãe aqui em SP, tão intempestivamente, me deixaram perturbada, mas eu não conseguia raciocinar a lógica.

Lembro que antes da anestesia fazer efeito, pensei muito no meu filho, não o via desde o dia que internei… E uma enfermeira me fez algumas perguntas sobre ele pouco antes de entrar para a sala de cirurgia (o que deixou minha irmã estressada, ela quase jogou por água abaixo todo o segredo que todos estavam esquecendo de mim).

Está aí, me lembro as palavras dela (mas me lembro que elas não fizeram sentido para mim naquele momento):

“ – Nossa, Fê, você tem 34 anos?

– Sim

– Você tem filhos?

– Tenho, um menino de 2 anos e 11 meses, Vicenzo. ”

Então ela colocou seu rosto junto ao meu na maca e sussurrou no meu ouvido:

“- Não estou te perguntando essas coisas porque sou intrometida não viu? É porque é tão raro a gente ver coisas assim tão graves acontecerem com pessoas tão novas como você, e para te tranquilizar que vai dar tudo certo, viu? Fica tranquila. ”

Nesse momento senti minha irmã fuzilar a enfermeira com os olhos, o que até certo foi engraçado, mas me deixou confusa e emocionada.

A cirurgia é feita do mesmo jeito que o exame, pela artéria femoral, os médicos operam através de joysticks e acompanham tudo através de telas e monitores. Ocorre que quando eles foram tentar colocar o stent no local em que encontram dissecção do dia anterior, já havia outra, em menos de 14 horas, ao invés de um aneurisma eu tinha dois, então a solução foi colocar um stent maior que conseguisse alcançar as duas lesões. E a minha cirurgia que levaria 40 minutos levou 2h. A cirurgia foi um sucesso! Graças a equipe da Hemodinâmica do Hospital São Luiz do Morumbi que realizaram minha cirurgia com maestria.

Voltei para o leito da UTI, meu irmão Felipe chegou naquela noite, depois da cirurgia, foi aí que fiquei sabendo que esse tempo todo eu corria risco de morte súbita, morte eminente. Que eu poderia ter morrido a qualquer momento desde aquela quinta feira, ou até antes disso. E não estaria aqui dividir essa história com vocês.

Contei isso tudo para chegar à duas perguntas. Eu tenho enxaqueca há 20 anos. Negligenciei a minha saúde e arrisquei minha vida me automedicando todos esses anos. Será e só será que, se eu tivesse feito um acompanhamento médico periódico com exames específicos como deve ser, eu não poderia ter evitado passar por essa situação de quase morte? E você?

Um beijão,