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A Mulher Maravilha entrou de férias

Quando começamos os estudos do Projeto Mulheres em 2010, a mulher estava no auge de sua auto-afirmação. Chamada de poderosa pela mídia, era reconhecida publicamente como alguém capaz de resolver e realizar praticamente tudo. Rápida, decidida conseguia absorver perfeitamente todos os papéis sociais que ambicionou com um bom grau de perfeição. Só tinha uma coisa que ela tinha dificuldade em conseguir: aquele corpo perfeito de capa de revista.

Falar com elas naquela época era ouvir o canto da vitória. Sim, tínhamos chegado longe. Embora existisse – e ainda existe – uma desigualdade assustadora no que se refere a salários, oportunidades e benefícios entre homens e mulheres; era inegável como a mulher brasileira estava no seu momento de sentir-se poderosa, o que significava, a maioria das vezes, se sentir superior ao homem.

Só que para chegar a esse ponto tínhamos dedicado muito do nosso ser para provar que podíamos, que tínhamos a mesma capacidade que os homens de realizar e ainda tivemos que acumular funções e tarefas para ter a permissão social de ocupar um espaço à luz do sol e não somente à luz da cozinha.

Existem crenças sociais muito arraigadas que nos levaram a agir assim. Um exemplo de crença limitante é aquela que nos diz que podemos ser profissionais com tudo que isso implica de dedicação, mas é claro, mãe é mãe então somos nós as – únicas – responsáveis pelos filhos. Outra crença arraigada, é que a casa é da mulher, assim cuidar dela é nossa responsabilidade mesmo que isso signifique mexer em canos ou cabos elétricos. Ah! saudades do homem-mestre-de-obra que sabia furar, lixar, conectar, instalar… verbos que se conjugam cada vez menos com sexo masculino.

Quando terminamos a pesquisa no final de 2010 notamos sinais claros de que essa Mulher Maravilha ia expanar. Era evidente que mesmo com o sabor de vitória nos lábios, a posição onde ela se encontrava a estava exaurindo. Ou ela abria mão da supremacia feminina sobre o lar e os filhos, ou ela abria mão da vida profissional que tanto lhe dava prazer, isso por falar em só dois aspectos dessa Mulher Maravilha. Não tardou e os sinais ficaram mais evidentes: a cada ano nossos estudos mostram mulheres compartilhando com seus companheiros mais os deveres – e não só os prazeres – de cuidar de filhos e da casa. Mulheres abrindo mão da carreira corporativa para se dedicar aos filhos pequenos e conseguirem rendas alternativas em parceria com companheiros que além de arcar com boa parte dos custos da família, dividem – com prazer – tarefas domésticas.

Foi sem dúvida bom saber que podemos ser essa Mulher Maravilha e que obtivemos reconhecimento por isso, mas é melhor ainda estar no auge e decidir, por vontade própria, sair do pedestal para vivermos de formas mais leve, saudável e prazerosa.  A Mulher Maravilha ainda existe em nós e ela pode ser chamada assim que a precisarmos mas umas férias prolongadas não faz mal a ninguém, faz?

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
Escreve semanalmente sobre as transformações que estamos vivendo como sociedade no blog Movimentos Humanos em www.behavior.com.br