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E foram felizes para sempre…

E foram felizes para sempre… Será? Como?

Todas nós fomos embaladas por histórias de luta, coragem, desafios, príncipes e princesas lindas.

Geralmente terminavam bem, o príncipe lindo, salva ou reencontra a princesa amada. A felicidade existia! E nós, crianças ingênuas, acreditávamos em tudo isso, sem saber que havia toda uma intensão de controle e manipulação.

Às vezes penso por que de tanta festa, quando alguém se casa, afinal, casamento não é nem nunca será solução de vida. Ao contrário, é uma enorme empreitada cheia de percalços e frustrações!

Crescemos com a ideia enganosa de que tudo que é caro é bom, e encontrar um marido, casar, ter uma vida farta, confunde-se com a ideia de felicidade e alegria.

A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada. Uma vida cheia de conquistas, selos (marcas e griffes), em lugar da busca do simples, do prazeroso.

Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas.

Hoje a resposta é: “ser rico e famoso”. Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos, dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos, enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

Assim, vamos crescendo, nos tornando adultos confusos e sem saber bem onde ir e em que confiar. Mas mesmo assim, vamos em frente, buscando sentido em toda esta confusão que chama-se vida, cheia de surpresas e imprevistos! E esta é a certeza que podemos ter: não sabemos o que vira por aí e estar aberto para o inesperado, que muitas vezes pode ser agradável!

Miriam Halpern
psicóloga e psicanalista
mhalperng@gmail.com

A escola das princesas e a equidade.

Num primeiro momento a reação é de incredulidade: difícil acreditar que em outubro de 2016 ainda se pense no Brasil em educar mulheres para serem princesas. Para tentar entender imaginei que o conceito de princesa era embasado na Elsa da Frozen, uma princesa linda, sensual, que abre mão da coroa pela liberdade mas que o amor – pela irmã, e não por um homem – a faz retornar ao seu lugar no reino e, ao final, fica sozinha e… feliz. Amei essa abertura de possibilidades para as meninas, mas o que mais amei de fato é como a história ressoou em milhões de meninas mundo a fora, o que demonstra claramente a mudança de paradigma que o feminino está vivendo.

Talvez seja por isso que a Escola de Princesas tenha surgido. Toda tendência gera uma contratendência, tão forte quanto. Faz parte do refluxo da sociedade que se sente mais segura com o conhecido, com o estabelecido, mesmo que represente o passado. Neste momento de transição as formas estão dissolvidas e ainda as novas formas não estão definidas. Essa liberdade é para poucos. Segurar-se sem parâmetros sociais rígidos implica em maior responsabilidade; e todos nós sabemos que adoramos jogar a responsabilidade no vizinho ao lado.

Educar meninas para saberem se comportar socialmente não deveria nos incomodar, devia? Afinal, vamos convir, tem muita criança por ai que precisa de bons ensinamentos de convivência social e respeito ao outro. Compreender que o espaço público exige percepção do outro. Por outro lado, meu sentido de equidade me diz, todo mundo tem direito a ser o que quiser enquanto seguir as leis que regem a sociedade. Assim, que venham todas as escolas de princesas e principes que desejarem. Cabe a cada um de nós escolher se queremos isso pra nossos filhos.

Assim, só me cabe gerar a reflexão do que significa “educar a se comportar socialmente” como disse a fundadora, Nathalia de Mesquista. A Escola de Princesas re-estabelece parâmetros com contornos bem definidos do que é ser uma menina atrelados ao lar e ao comportamento dócil e meigo e contrários ao universo masculino, que por contraposição deve se referir ao mundo da rua, ao espaço público. Durante milênios construímos nossa identidade – masculina e feminina – embasado na diferença, como dois mundos complementares. Assim aprendemos que se é mulher quanto mais diferente se é do homem. E vice-versa. Além do aspecto competitivo que essas crenças geram, alimentam a sensação de incompletude que o estar só significa.

Estamos caminhando para um espaço em que os limites de gênero ficaram mais diluídos e com isso os papéis menos limitados. Estamos ficando maiores, mais extensos, nosso mundo se ampliou, podemos não estar acostumados a tanta fluidez mas poder se soltar, cada vez mais, tem sido o desejo da maioria das pessoas que entrevisto.

Estamos compreendendo que ser mulher não significa saber cozinhar e costurar. Embora saber fazer essas duas coisas sejam úteis, para ambos os sexos. Nada contra. Pelo contrário, uma mulher que sabe bordar não é menos moderna daquela que não sabe pregar um botão. A modernidade não passa, na minha perspectiva, pela linha e agulha. E é sobre isso que faço o convite para refletirmos esta semana: o que nos faz ser mulher ou homens? As tarefas que somos capazes de exercer? O domínio do lar? Ou da rua, me refirindo ao traquejo social, ao trabalho? À responsabilidade da família? Da criação dos filhos? O que nos faz ser mulher ou ser homem? A virgindade? A liberdade sexual?

Não colocaria uma filha minha na Escola das Princesas e discutiria muito com meu irmão e minha cunhada se eles pensassem em colocar minhas sobrinhas numa, mas essa rede de escolas ter surgido ajuda a refletir sobre nossos valores e crenças. Ajuda a tomar consciência dos pequenos detalhes que vão construindo uma identidade. Ainda vejo amigas modernas, bem resolvidas ensinando suas filhas a serem delicadas e dóceis. Pelo menos a Escola das Princesas escancara essas crenças sem pudor. É bom para trazer para a mesa do jantar essa discussão.

Meu convite, esta semana, vai além, escreva para mim e me conte, pública ou inbox, o que você pensa e sente sobre isso. Boa semana a todos!

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
Escreve semanalmente sobre as transformações que estamos vivendo como sociedade no blog Movimentos Humanos em www.behavior.com.br