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Gostar de malandro, uma sina?

Conheço muitas mulheres que adoram se apaixonar por malandros. A maioria sabe no que está se envolvendo, conhece o final da história, mas algo as leva a repetir a mesma experiência. Já comentei aqui que somos guiados por mitos, crenças e valores. Os mitos não são negativos, pelo contrário, segundo alguns pensadores da atualidade, não tê-los, especialmente os construtivos, facilita o sentimento de falta de sentido de vida, do vazio que favorece o consumismo como fonte de satisfação e por processos depresivos, tão comuns hoje em dia.

Os mitos nos levam sempre para algum lugar, nos organizam para ser alguém. Considero importante escolhermos bons mitos porque eles guiarão nossas decisões, mesmo de forma inconsciente, promovendo um aspiracional, um modelo a ser seguido.

O que entendemos como feminino, como qualquer uma das identidades sociais, está recheado de mitos sobre a feminilidade. Alguns deles nos levam a optar por malandros. Estes mitos partem de alguns modelos sobre o que é ser mulher. Para aquelas que sofrem com (e por) malandros, esses mitos costumam estar ligados ao sacrifício e ao sofrimento. Ser mulher é sofrer, é uma crença que mulheres com esse mito interno costumam repetir para si mesmas, e o que é pior, para suas filhas. Amar um homem é sofrer. Para as mulheres guiadas por estes tipos de mitos sobre o feminino, a mulher carrega a sina de ser enganada pelo seu homem e sofrer. De certa maneira, lá no íntimo, isso as coloca no papel de vítima e isto as enobrece. Acreditam que amar um homem traz, necessariamente, esse resultado. E o fato de amar sabendo que irão sofrer, as coloca numa posição quase sagrada.

Vi este modelo mental e emocional bastante difundido no norte e nordeste, com enfase no nordeste. Toda vítima – atitude de ser uma e não a vítima subjugada – costuma ser manipuladora. É onde radica seu poder. É através do enobrecimento do sacrifício que faz pelo amor e/ou pela família que ela consegue obter diversas contrapartidas. Os pequenos poderes que interlaçam as relações, especialmente, as familiares. Como negar aquilo, se ela suportou tudo isso por nós, filhos? Como negar a ela, minha mulher, se ela aguenta tudo o que eu apronto?

Óbvio que há casos muito sérios em relação a aceitação do malandro na nossa vida. Lembro da entrevista de uma moça jovem e muito bonita de Recife que sofria constantes desrespeitos do marido, ele não voltava para casa, se envolveu com vizinhas e conhecidas… quando foi comentar com a mãe ouviu dela que se fosse mulher aguentaria porque ela tinha aguentado tudo isso e mais do pai dela em prol da família. Quando foi falar com a sogra, a mulher pareceu até orgulhosa de saber que seu filho seguia a sina masculina. Em determinado momento perguntei para ela porque ela continuava no casamento. E a resposta, fala muito do mito que, se quisermos podemos manter, mas pelo menos convido a repensar: porque isso era ser mulher.

Nany Bilate
Pesquisadora, pensadora e fundadora da Behavior, centro de estudos sobre valores e crenças sociais.
www.behavior.com.br