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A Sofia dentro de nós.

Em 1762 o filósofo suiço Jean-Jacques Rousseau escreveu Emílio, um obra sobre como devia ser a educação do homem – e da mulher – para obter uma sociedade virtuosa e perfeita. Rousseau dedica um capítulo à educação das mulheres: Sofia. Sofia trata de como educar a mulher ideal para Emílio. Nele podemos entender o que significava uma mulher perfeita para a época: submissa ao homem, com pouco ou mínimo acesso à educação formal, dedicada aos filhos e a família. Que deveria “aprender desde cedo a sofrer injustiças” e distrair seu marido através de artes como cantos e danças. Ainda, como as mulheres possuíam certa “indocilidade” era importante, segundo Rousseau, que “sejam submetidas desde cedo” a este modelo criado por ele para disciplinarem seu caráter.

Emilio é uma leitura obrigatória para entender a série de crenças sociais que constituem o que é ser mulher – e homem – e, por mais distante que pareça o ano de 1762, até hoje influenciam nossas escolhas e comportamentos. Com o passar dos séculos, os comportamentos se modificaram e podemos não ser submissas como eram nossas avós ou bisavós que calavam e temiam seus maridos; entretanto, mesmo com toda a independência que ganhamos, reflita comigo como muitas de nós estamos dispostas a perdoar os erros do companheiro com facilidade, independente da quantidade de vezes que esse erro se repete; o quanto temos o ímpeto de “atender” as vontades de nossos companheiros mesmo que isso signifique abrir mão da nossa; de tratá-los com certa complacência, como se não fossem capazes de suportar uma negação ou frustração.

Pense que talvez nessas atitudes e comportamentos cotidianos existam a semente da Sofia de Rousseau plantada dentro de nós. Nossa submissão não é de serva como antigamente, mas é demostrada, mesmo que com roupagem moderna, quando colocamos o homem, nosso homem, num espaço privilegiado e protegido. Algumas podem dizer que é natural à mulher esse tipo de atitude, que é o lado maternal que brota, que a mulher é acolhedora e nisso radica sua feminilidade… crenças que recebemos desde que nascemos e que ao internalizar e transformar em comportamento, transmitimos para nossos filhos.

Meu convite esta semana é refletir o quanto o ideal feminino que nos guia está associado à mulher que nasceu para atender, satisfazer e fazer feliz o homem que está ao seu lado. O quanto chamamos essa crença de amor. O quanto essas crenças nos afastam do sonho maior que permeia boa parte das mulheres que ouço: o de amar e ser amadas numa relação romântica-companheira. Nessa relação o companheirismo está representado pela equidade, direitos e deveres iguais. Numa relação em que alguém está sempre em destaque, pode haver carinho e amor mas não haverá, certamente, equidade.

Nany Bilate
www.behavior.com.br/blog